Machado de Assis: pode apagar a lanterna de Diógenes
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quinta, 27 de fevereiro de 2025

Diógenes era um cidadão meio maluco, meio filósofo, que viveu em Atenas 400 anos a.C. Certa feita foi encontrado em pleno meio-dia, andando com um lampião aceso. Perguntado o que estava fazendo, respondeu que “procurava um homem honesto”. Daí se conclui que HONESTIDADE é uma virtude rara há mais de 2.500 anos. E se hoje, a sociedade anda enlameada pela corrupção, em todos os seus cantos e recantos, não devemos nos surpreender.

 

Aqui, no Brasil, então, ninguém mais fica vermelho, quando pego com a boca na botija. É nas repartições, nas entidades, nas mais diversas atividades, por todos os tipos de seres humanos, pobres ou ricos, sábios ou ignorantes, humildes ou importantes – parece que este bacilo contaminou todo e qualquer espécime racional. Segundo estatística internacional, CP 14/2, o Brasil ocupa o 10º lugar em economia. Mas em termos de honestidade, somos a 107ª nação, dentro do universo. O que diria Diógenes se viesse hoje ao Brasil?!...

 

Machado de Assis, o maior expoente da Literatura, fundador da Academia Brasileira de Letras, negro, dentre as inúmeras obras literárias que compôs, nos brindou com interessante crônica: “Apaguemos a lanterna de Diógenes. Encontrei um homem honesto”. Comentava ele um anúncio de jornal: “Vende-se barbearia, ponto bem localizado, freguesia fiel. O proprietário vende o negócio por não entender do assunto”. Pensava este pseudo profissional que, para desempenhar o ofício, bastava possuir máquina, tesoura, pincel, sabão e demais apetrechos. Mas depois de várias tentativas, concluiu que o cliente não saía totalmente satisfeito. Alguns pediam para refazer o corte, emparelhar o cabelo. Outros saíam com escoriações, tendo de ser corrigidas com água oxigenada, álcool e algodão. E dentro de sua autenticidade, o barbeiro entendeu que não estava apto para aquela atividade.

 

Pois comigo ocorreu um episódio bastante semelhante. Num determinado estabelecimento comercial, (óbvio que não vou revelar a identidade), na Rua do Comércio, procurei um necessário produto. A funcionária me respondeu que não tinha no momento, mas iria chegar na semana seguinte. Como eu conhecia o pessoal, já deixei pago com cheque, e ela me remeteria a encomenda quando chegasse. Dias depois, telefona para o Supermercado Sorriso, avisando que tinha chegado a mercadoria. Meus filhos, imediatamente, mandaram um funcionário buscar a encomenda do pai, dando o dinheiro para o pagamento. Os filhos não sabiam que eu já tinha pago, e eu, ausente, também não sabia que eles pagaram novamente, entendendo o procedimento absolutamente normal. Passados alguns dias, a gerente do estabelecimento, na exatidão da contabilidade, percebeu que a mercadoria fora paga duas vezes. Destacou então um funcionário até o Sorriso para me devolver o cheque que eu tinha deixado. Se Machado de Assis ainda vivesse teria assunto para um novo artigo. Ainda há HONESTOS neste país. O Brasil não está perdido! Evidente que a encomenda não valia uma loteria. Mas quem é fiel no tostão, é fiel no milhão.

 

 

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