Os valores pagos pela arroba do tabaco são apontados como fatores decisivos para a renda das famílias produtoras, além do planejamento das propriedades rurais. Na região do Médio Alto Uruguai, a produção registrou aumento de 62,6% entre as safras 2023/2024 e 2024/2025, conforme dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). O volume colhido passou de 4.175 para 6.790 toneladas, com crescimento em praticamente todos os municípios produtores. Em Caiçara, que lidera a produção regional, foram registradas 1.849 toneladas na safra 2024/2025, alta de 54% em relação ao ciclo anterior. No município, a definição da tabela de preços influencia diretamente o planejamento da próxima safra, os investimentos nas lavouras e a manutenção das pequenas propriedades familiares.
Renda no interior
Produtor da Linha Gruta, em Caiçara, Mateus Eugênio Sari cultiva cerca de três hectares e relata que a atividade envolve a família durante praticamente todo o ano. “A gente começa preparando canteiro, cuidando das mudas, depois vem plantio, manejo, colheita, cura no galpão, classificação e só depois a venda. É um ciclo longo. Quando o preço não acompanha o custo, sobra preocupação. Cada etapa exige investimento e tempo da família”, afirmou. Ele destaca que a oscilação no valor da arroba compromete o planejamento. “São meses de trabalho manual. A gente enfrenta clima, doença na lavoura, gasto com adubo e, muitas vezes, precisa contratar ajuda. Se o valor pago diminui ou tem desconto inesperado, a margem some. O produtor precisa de previsibilidade para continuar produzindo”, disse.
Segundo Sari, mesmo diante das dificuldades, a cultura ainda é a principal fonte de renda. “Para a pequena propriedade, o tabaco ainda é o que dá retorno por hectare. Mas precisa ter preço compatível com o esforço e com o custo que a gente tem ao longo do ano”, declarou.
Negociação e reajuste
A discussão sobre preços esteve no centro das reuniões da Comissão Representativa dos Produtores de Tabaco, formada por entidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Na sexta-feira, 13, o grupo assinou protocolo com a empresa JTI, em encontro na sede da Afubra, em Santa Cruz do Sul. O acordo estabelece reajuste linear na tabela de preços mínimos para a safra 2025/2026: 7,06% para o tipo Virgínia e 6,56% para o tipo Burley.
O presidente da Fetag-RS, Carlos Joel da Silva, afirmou que o percentual deve considerar os custos levantados pelas entidades. “Defendemos reajuste linear em todas as classes e com base técnica. O produtor precisa ter segurança de que o preço acompanha o custo de produção. O índice firmado passa a ser referência para as demais empresas, porque buscamos equilíbrio econômico para quem está na lavoura”, disse. Na mesma agenda, houve reunião com a BAT, mas não ocorreu assinatura de protocolo, pois a proposta apresentada previa percentuais diferenciados entre classes.
Classificação na propriedade
Durante as tratativas, as entidades reforçaram a aplicação da Lei Estadual nº 15.958/2023, que determina a classificação do tabaco na propriedade no ato da aquisição. A norma foi validada pelo Tribunal de Justiça do Estado e prevê arbitragem em caso de divergência. Para Carlos Joel, a medida representa mudança na relação entre produtor e indústria. “A classificação na propriedade garante transparência no momento da venda. O agricultor pode acompanhar o processo no galpão, conferir a classe atribuída e exigir comprovante. Se houver divergência, a lei prevê arbitragem. Isso evita deslocamentos desnecessários e reduz custos. É um instrumento que fortalece o produtor na negociação e assegura o cumprimento do que está previsto em lei”, afirmou.
Os dados da safra 2026/2027 serão divulgados na segunda quinzena de agosto.