Há muitos questionamentos a respeito da origem da atual polarização política nacional, sobre a radicalização e a tendência ao belicismo, que estimula um comportamento mais belicoso entre as pessoas e favorece a intolerância política, na qual cada um se sente dono da razão e esquece que o seu direito termina onde começa o do outro.
Alguns analistas responsabilizam lideranças políticas: há quem diga que isso é resultado da corrupção nos governos do PT, outros acreditam que os militares estejam por trás dessa tendência e há os que acreditam que o comportamento autoritário dos juízes do STF é que motiva a ação dos radicais.
Como cientista social e política que estuda o comportamento e a cultura política do eleitor brasileiro há décadas, devo sinalizar que o humor da sociedade brasileira tem sido um terreno fértil para recepção do discurso do ódio.
Desde a abertura política e do advento da democracia, a população tem ficado à mercê do populismo, do clientelismo, da demagogia, da malversação de serviços públicos e da corrupção. Se fossemos sistematizar a quantidade de escândalos, denúncias, operações policiais e condenações de políticos de todas as esferas, poderíamos chegar a números aterrorizantes. O sistema político vigente assusta e indigna o eleitor, que tem a certeza de que os políticos atuam em causa própria, não fazem as reformas necessárias para a moralização política e são responsáveis pela precarização dos serviços e pela piora da qualidade de vida. Na percepção da maioria da população, o Brasil não vai para a frente porque os políticos não se entendem e cada corporação quer manter os seus privilégios.
Ou seja, uma coisa leva à outra: historicamente o eleitor mantém altos níveis de descrença política, mostra-se cada vez mais cético, menos participativo nos processos eleitorais e com menos paciência. Não podemos esquecer da atual transformação digital, que empodera os eleitores, tirando-os da passividade para a atividade e dando palanque para que possam proferir a sua desesperança e raiva.
Pronto, com a tempestade perfeita em curso, o discurso de ódio motiva o belicismo político brasileiro, que tem como foco a manutenção de uma bandeira política contra inimigos reais ou imaginários. E estes “inimigos” podem estar representados por temas ou por mensageiros (como profissionais de mídia ou do judiciário), que defendam uma mensagem que seja classificada como contrária.
Concomitantemente, observa-se uma tendência de militarização no discurso político da direita, englobando pautas sociais e valorizando o tema da segurança pública e, por conseguinte, a importância das forças armadas.
E ainda tem a percepção de uma grande parcela da sociedade de que os seus valores sociais e morais estão sendo colocados à prova. É como se um grupo político que defende o direito de minorias quisesse se sobrepor à maioria, tentando desconstituir conceitos geracionais que foram absorvidos pela população em suas primeiras instituições sociais como a família, a escola, a igreja e que hoje são rotulados como preconceituoso ou politicamente incorretos, criando um sentimento de perseguição política.
A saga que vivemos se mantém em um ciclo vicioso que não será resolvido por uma terceira via. A mudança no humor da sociedade deve ser construída com aumento do nível de conhecimento formal através de uma educação emancipatória, com reformas políticas que realmente quebrem os mecanismos de sustentação de privilégios e de usurpação, combinadas com uma política de estado que trabalhe pelos interesses e desenvolvimento do Brasil.
