Pode parecer estranho dizer que a verdade é relativa. Afinal, estamos acostumados a pensar que a verdade é única. Mas, na prática, cada pessoa constrói sua própria percepção do que é verdadeiro a partir do que aprende, vive e experimenta.
Vivemos em diferentes “bolhas sociais”: família, amigos, escola, trabalho, igreja, grupos de lazer. Dentro desses espaços formamos nossos valores morais e éticos. Eles funcionam como réguas que usamos para definir o que é certo ou errado, o que pode ou não pode, o que existe ou não existe. E, a partir disso, definimos também o que consideramos verdade.
Muitas vezes associamos a verdade ao que aprendemos ou ao que vemos, inclusive na internet. Não é à toa que se usa o exemplo do copo com água até a metade: uma pessoa diz que está quase vazio, outra diz que está quase cheio. O fato é o mesmo, mas a interpretação muda. Isso mostra que, em muitos casos, a verdade pode estar ligada ao ponto de vista, a uma informação parcial ou a um julgamento. E todo julgamento carrega um pré conceito.
Pré conceito não é necessariamente algo negativo. Todos nós temos pré conceitos. Eles são ideias provisórias, hipóteses que criamos sobre pessoas ou situações. Essas ideias podem mudar com novas informações. Por exemplo, quando conhecemos alguém e achamos que a pessoa é arrogante, mas depois de conversar percebemos que ela apenas era tímida. A hipótese inicial foi corrigida.
Já o preconceito é diferente. Ele é um julgamento rígido, fechado, que não se abre à revisão. O preconceito desqualifica ou discrimina alguém por características como religião, gênero, raça, condição social ou comportamento. Ele produz injustiça.
O objetivo aqui não é fazer um debate filosófico, mas refletir sobre um comportamento comum na sociedade: tendemos a acreditar naquilo que conseguimos compreender ou naquilo que queremos acreditar.
Com os smartphones sempre nas mãos, estamos permanentemente conectados. As redes sociais nos mostram conteúdos que parecem confirmar nossas ideias. Muitas vezes temos a sensação de que o celular “lê nossa mente”. Na prática, o que acontece é que nossas escolhas digitais deixam rastros.
Cada vídeo assistido, cada notícia lida, cada curtida ou compartilhamento gera dados. Esses dados alimentam algoritmos que passam a nos oferecer conteúdos semelhantes. Assim, aquilo que era um pré conceito, uma hipótese flexível, pode se fortalecer e começar a parecer uma verdade absoluta. E, em alguns casos, pode evoluir para preconceito.
De forma simples: o que você consome na internet cria um padrão. O algoritmo entende esse padrão e passa a entregar mais do mesmo. Isso mantém você dentro de uma bolha digital.
Imagine que você leia uma notícia sobre violência contra a mulher. Em seguida, surgem outras notícias sobre o mesmo tema. Quanto mais você consome esse tipo de conteúdo, mais ele aparece. Sua percepção sobre a realidade pode se tornar mais intensa e emocional, porque você está constantemente exposto a esse recorte específico.
Isso não significa que o problema não exista. Significa que sua visão sobre ele passa a ser moldada por um fluxo contínuo de informações semelhantes. Aos poucos, sua noção de verdade pode se transformar.
No fim, a questão central é esta: acreditamos que a verdade é aquilo que vemos com mais frequência, aquilo que confirma nossas crenças e aquilo que faz sentido dentro da nossa bolha social e digital.