Pressa e correria
Para surpresa de zero pessoas, o mundo está virado em pressa e correria. Na segunda-feira a turma já está ansiada pelo “sextou”. Chega na sexta-feira, você pisca e estamos novamente na segunda. Tudo é para ontem, todo mundo quer agilidade e o círculo vicioso muitas vezes estaciona em um problema de saúde. E o que é mais curioso (ou não): as 24 horas de um dia, hoje, são as mesmas de 50 ou 100 anos atrás. E assim a vida vai passando. Ou voando.
Antigamente nossos avós e pais tomavam seu chimarrão tranquilamente às seis e pouco da tarde, a janta era sempre antes do jornal e a novela das nove ainda era novela das oito. Hoje muitas pessoas criaram o hábito de somente parar na hora de dormir. E assim a vida vai passando. Ou voando.
O futebol também anda com pressa. O calendário cada vez mais curto, apertado, mal acaba um campeonato e já começa outro. Se bobear não dá tempo nem de lavar o uniforme. Os grandes clubes seguem em frente com seus elencos numerosos, voos fretados, estruturas invejáveis... O problema fica mesmo para a maioria, os clubes pequenos, a galera do submundo, a turma que ainda pega busão. Para eles, cada jogo vale muito mais do que três pontos: vale um novo contrato de poucos meses, vale visibilidade e, muitas vezes, vale a próxima folha de pagamento.
Nos clubes pequenos, o tempo é curto demais até para sonhar. O estadual mal começa e a gente já está indo para o final. Um tropeço vira sentença, uma lesão vira despedida, e a torcida mal aprende o nome do centroavante antes de ele sumir no calendário ou se enfiar numa várzea qualquer. A maioria dos atletas no Brasil não está nos elencos milionários. Está nos clubes menores, rodando o país, jogando quando dá e esperando quando não dá. Enxugar datas pode parecer eficiente no papel, mas, na prática, concentra oportunidades e empurra muitos profissionais para fora do jogo.
Enquanto os grandes reclamam do excesso de partidas, os pequenos sofrem com a falta delas. Disputam um estadual reduzido, caem cedo e ficam meses esperando a próxima oportunidade. Quando ela existe, no caso. O problema não é só esportivo, é profissional, pois os atletas ficam a ver navios, enquanto os boletos, sem piedade alguma, continuam batendo em suas portas. Tudo por causa da pressa para atender os grandes.
E assim a vida segue. O futebol, da mesma forma. Ambos correndo de forma desenfreada, mas seguem. E a gente vai se moldando e se adaptando ao jornal das oito perto das nove, a janta lá pelas dez e meia e os campeonatos estaduais que começam hoje e terminam amanhã. A parte boa é que, na carona, vamos sobrevivendo, também.
PAPO DE FÉ
“Pela oração afugentamos todos os males.”
– Santo Agostinho