A última flor que eu te dei
Os textos e artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, e não traduzem a opinião do jornal O Alto Uruguai e seus colaboradores
segunda, 30 de março de 2026

Costumamos procrastinar as coisas, inclusive sentimentos, como se soubéssemos sobre o tempo das coisas. Seguimos rotinas e raramente quebramos o protocolo das horas em prol do amor. Esquecemos do amor, dos bilhetes e das flores. De quando recebemos ou da última vez que enviamos. Vivemos plugados no automático da grande célula chamada sociedade, que por ser individualista, nos faz refém de afetos na medida em que não supre nossa inevitabilidade tão humana de perceber nossos pares. 
Complicado o cenário onde nosso discurso de “bem resolvido” fica em desalento com nossas necessidades de troca. No entanto simples se entendermos que “viver é conviver”, já que o homem é um animal que não vive só. Nossa arrogância e insistência em provar para o mundo que sabemos nos virar sozinhos sustentam aparências e retóricas, só que não preenchem o vazio que fingimos não existir. São aqueles momentos de reflexão que você tenta entender o que falta comprar. Ou seria o caso de mudar de casa, de profissão ou de namorado? Quem sabe repaginar o guarda-roupa ou mudar o visual? E a lista de antídotos para ausências não para até identificarmos algo que nos faça novamente vibrar e ter a ilusão de que conseguimos resolver nosso abismo interior. Pronto! Novamente estamos “nós e o mundo” a olhar a sociedade de salto alto, sem entender que somos incompletos sem o outro e assim não existimos. 
Estamos esquecendo como viver e, às vezes quando nos damos conta, a vida já está ensaiando curvas, pronta para nos levar. A celeridade por é vista como verborragia na visão cartesiana, que afirma não ser possível o homem se conhecer no encontro com outro homem. A redenção chega por Sartre, que afirma ser o contato corporal o que une o ser humano e o mundo. Salve Humanos! Por menos solilóquios e mais interação, pois o mundo precisa sentir que estamos passando. A alma precisa ser voraz por afetos, por laços, por dias seguintes e sair do comodismo mórbido que pode falir floriculturas e calar poetas. A instantaneidade é cada vez mais exigida na práxis e não há mais tempo a perder com sorrisos amarelos e possíveis encontros, “... pois ser feliz me consome muito.” (Clarice Lispector). 

                                                                                                      Bons Ventos! Namastê.

Fonte: