A tecnologia que altera o mercado de trabalho também está mudando o jovem profissional
**Os textos aqui publicados são de total responsabilidade de seus autores, e não refletem a opinião do jornal O Alto Uruguai
terça, 21 de novembro de 2023

No último artigo, tratei sobre os efeitos da “digitalização do trabalho”, que está associada à utilização de ferramentas tecnológicas para mediar a relação entre trabalhador e usuário, em que o atendimento “olho no olho” passa a dar espaço ao atendimento via canal digital. E nem estou falando aqui do atendimento robotizado, via chatbot, com inteligência artificial.
A transformação digital não altera apenas a forma como produzimos e comercializamos, muda também o nosso humor, a maneira como nos comportamos e até mesmo, nossos sentimentos.
Temos que perceber que há um mundo de possibilidades. Temos mais informações na palma da nossa mão do que tiveram todos os nossos antepassados juntos. Nos últimos dez anos, diversas tecnologias surgiram com a capacidade de mudar a vida em sociedade e alterar os nossos valores e crenças.
Cada vez mais, temos muitas oportunidades e pouco foco. Para entendermos um pouco o “modelo mental”, a cabeça de quem está entrando no mercado de trabalho, podemos fazer uma comparação com um carro em movimento. Imagine que esse motorista está na casa dos 30 anos, já fez uma ou duas faculdades e está ávido por ter uma carreira e crescer na profissão escolhida. De repente, ele se dá conta de que está com muita pressa.
Entra no seu primeiro emprego como profissional e traz consigo um conjunto alto de expectativas e a necessidade de ser reconhecido, de ter muitos feedbacks positivos. Como este jovem profissional enxerga todas as oportunidades do mercado, não tem muito foco de atenção. Afinal de contas, quem quer tudo, não tem nada!
E, como toda viagem, a atenção precisa ser algo constante, há sempre muita coisa acontecendo e os imprevistos fazem parte da jornada. Mas, como esses jovens profissionais já entram no mercado de trabalho com suas características alinhadas à transformação digital, desejam autonomia, flexibilidade e canais de comunicação mais horizontais. Não querem trabalhar com muita hierarquia.
Como a estrada do mercado de trabalho está em contínua construção e a maioria das estruturas corporativas ainda são tradicionais e conservam um modelo de trabalho hierárquico, é normal que haja choques geracionais ou a leitura de que estes jovens não têm foco, não dão atenção às rotinas do negócio.
A falta de foco e atenção no trabalho não está associada ao desleixo deste jovem profissional, que se autoclassifica nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, como comprometido! Tem a ver com a influência que a transformação digital teve e tem na atual educação da sociedade, na forma como as redes sociais criam um novo ideal de vida, alterando nossos valores e crenças e ampliando o nosso individualismo.
Cada vez mais, estes jovens profissionais prestam menos atenção em exemplos reais bem-sucedidos de profissionais do seu ciclo de convivência e se espelham em influenciadores digitais que mostram como é a vida ideal do trabalho, criando uma régua de expectativa fora de sua realidade.
Bingo, chegamos nos dois grandes dilemas desta geração Z, que marca os novos profissionais: a ANSIEDADE e a IMPACIÊNCIA. Precisamos olhar para estes dois males como resultantes da maneira como estamos lidando com a tecnologia e ter claro, quem está no controle? Afinal de contas, governamos a tecnologia ou ela nos governa?

Fonte: