Tive intimidade com o Bispo Dom Bruno. Certo dia, lhe perguntei: “Dom Bruno, o que é mesmo um MONSENHOR?” Resposta – “é apenas um título honorífico, concedido pelo Papa, mediante recomendação do Bispo, a certos pessoas, normalmente sacerdotes, por excepcionais serviços à Igreja. Poderia também ser concedido a leigos”. Na minha cabeça ficou martelando aquele “concedido a leigos”. Comentei o assunto num grupo de pios malandros e arquitetamos um projeto de agraciar algum leigo com a eclesiástica honraria.
Elaboramos uma lista tríplice que enviaríamos ao Epíscopo para sua apreciação: Arildo Miguel Crespan, Lindo Ângelo Cerutti e Júlio A. Busatto. Falei a Dom Bruno que tínhamos uma sugestão a lhe fazer. Ele só deu uma risadinha marota. Os meus laços de amizade com o Bispo tinham fundamento esportivo, aliás, colorado. Quando o Inter ficou campeão do mundo, busquei o Bispo na sua residência e ele desfilou conosco. Se o Colorado jogava mal perguntei se aquele sofrimento tinha valor para a Eternidade. “Claro, Lirio”... Então retruqei: “Dom Bruno, sendo assim, nós colorados estamos todos salvos!!!”. Posteriormente, Dom Bruno foi substituído por Dom Zeno, gremista roxo. O Espírito Santo o levou para Novo Hamburgo e nos presenteou com o corinthiano Dom Antônio para acabar com o Gre-Nal episcopal...
Os anos rolaram. O Crespan virou um Diácono dinâmico, fazendo parte da hierarquia paroquial. O Tio Lindo, com enorme folha de serviços à Igreja, tinha o inconveniente da política. Sobrava o Júlio que gastava suor e sangue nas Festas de Santo Antônio. Cravava a faca nos empresários extorquindo as ofertas para a Igreja, enquanto sua esposa Dona Dileta mexia panelões na cozinha, durante as noitadas. E sempre com um sorriso nos lábios. Trabalhavam 24 horas por dia. A responsabilidade a cada hora nas suas costas. E o pagamento era apresentar, na reza de contas, o lucro da Festa.
Não sei como deixamos morrer a chance de termos um Monsenhor leigo. Com certeza o Bruno, que já tinha ordenado padre um homem casado, não se furtaria ao gesto de solicitar a concessão do título de Monsenhor a um leigo, quiçá o primeiro no Brasil, ou até dentro da Igreja. O Júlio fazia por merecer, com sobras de trabalhos, dedicação, doando-se com humildade, pois nunca procurou holofotes. Sacrificou-se por ser um cristão convicto, servindo à Igreja com os talentos que Deus lhe deu.
Creio fielmente, do contrário a Religião não tem lógica, que o Júlio quando morrer, assim como todos, deverá prestar contas dos seus atos. São Pedro, tendo nas mãos aquele volumoso livro de nomes, abrirá na letra J, buscando o nome de Júlio Busatto. Será, todavia, interrompido por Santo Antônio que dirá ao Pedrinho: “Este aqui é meu convidado especial” – e tomará o Júlio pela mão e o levará àquela ‘morada que Cristo preparou para aqueles que o amam’, com um FUKA na garagem, de lataria toda de ouro e a Dona Dileta sacudindo as chaves para um passeio celestial!
(Este artigo, junto com profunda admiração, é uma homenagem a todos os incansáveis ‘fabriqueiros’ das nossas paróquias).
