Dicotomias sobre a Dor
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sexta, 21 de março de 2025

Se a terra é plana, o mundo é uma constante dicotomia em uma lógica absurda e excludente onde tudo que necessariamente pertence a uma parte automaticamente não pertence a outra. A simultaneidade inexiste nessa classificação costumeiramente exemplificada por opostos como o céu e o inferno, o dia e a noite, o preto e o branco e assim por diante. Olhamos para nós e para os outros com esse senso de divisão que impede quaisquer tipos de simbiose, propiciando julgamentos estúpidos e sem base conceitual das coisas simples da vida que, certamente poderiam ser levadas de forma mais leve e dócil. A amorosidade vai deixando espaço para rudez de atitudes maquiadas por regramentos em que a exceção vira pecado, na medida em que fere o que temos como certo. Doses de gentileza e empatia costumam ser antídoto para todo e qualquer causa, atenuando as turbulências ocasionadas por dicotomias equivocadas como a contida na dor. Na DOR, por óbvio que exigimos um mínimo de pranto, desespero e desolação, do contrário duvidamos.

- Se a dor é emocional, a overdose de emoções deve ser quase teatral, inspirada na segunda fase literária do Romantismo no Brasil, onde a exaltação a melancolia e ao pessimismo são o carro-chefe de uma série de sentimentos.

- Se a dor é física, tem que ser superlativa, com o arrastar de pernas que claudicam por clemência, expressões agudas de sofrimento e plena de queixumes, do contrário...duvidamos!

DOR em uma definição da International Association for the Study of Pain (IASP) "é uma experiência multidimensional, desagradável, envolvendo não só um componente sensorial, mas também emocional...", havendo indivíduos mais sensíveis no senti-las, o que não significa que nos outros não doa também. Das dores físicas classificadas como as mais insuportáveis constam as cólicas renais e biliares, a dor de parto, fibromialgia, enxaquecas, dores oncológicas e outras tantas patologias. Existe até um protocolo da dor por conta da sua intensidade e sintomatologia, embora tenha gente que transite por elas com elegância e dignidade, em prantos calados na tentativa de amenizar o que inevitavelmente dói.

Voltando a dicotomia da DOR e sua negação as idiossincrasias atinentes a cada um, se não houver estardalhaço, logo não existe a dor (e a pior coisa para quem sente dor é duvidarem dela). Conheci gente fenecendo em uma cama, mas mantendo a vaidade em dia. Gente que embora anestesiada por fármacos conseguia contar piadas, rir da vida e consolar amigos e parentes. Resto no time daqueles que "cantam para subir" e não se entregam a primeira dor. Parafraseando a canção do mestre Cartola "Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre...", diria que certamente estou, mas por vezes com alguma dor.

Bons Ventos! Namastê.

 

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