Festa excelente, mas homenageado ausente
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sexta, 28 de março de 2025

Cumprimentamos as autoridades e responsáveis pela eloquente celebração do aniversário dos 70 anos do município. Contudo, observei poucas alusões à principal figura: monsenhor Vítor Batistella. Quando criada a paróquia, Taquaruçu do Sul rivalizava com o Barril (hoje Frederico Westphalen). O povoado das Taquaras possuía sinos bem maiores, indicativo do progresso religioso e econômico. Poucos dispunham de relógio e rádio. O sino anunciava o meio-dia e às 18 horas lembrava novamente o Angelus. O bimbalhar também comunicava pelo toque a morte de um adulto ou uma criança.

O Batistella optou pelo Barril, como paróquia. E tanto infundiu a religiosidade entre a população que a paróquia recebeu do bispo o adjetivo de “Prima inter Pares” (a primeira entre as demais paróquias) e mais um elogio “Barril docet” que quer dizer a ”Paróquia do Barril ensina” – é uma professora para as outras paróquias da diocese, pois os movimentos religiosos floresciam: A Cruzada Eucarística entre as crianças, A Ação Católica para os moços e As Filhas de Maria entre as moças. O Apostolado da Oração era vibrante para os adultos, ostentando as fitas VERMELHAS com orgulho. Não se pode esquecer a Pia Obra que incrementava as vocações para o sacerdócio.

Mas o dinamismo do pároco não se restringia somente ao campo religioso. Ciente da importância da educação, criou o Colégio Auxiliadora, ainda hoje em pleno funcionamento. Preocupado com a saúde dos paroquianos, fundou o Hospital Divina Providência, refúgio e medicina para os doentes. Fez surgir o seminário, para os jovens aspirantes a padres. Como muitos outros, eu também lá cursei o primário. Atualmente, o prédio dá lugar à residência episcopal. Para se comunicar com as ovelhas (o território paroquial, atendido no lombo do cavalo Zaino, abrangia o espaço atual de inúmeras paróquias) fez surgir a Rádio Luz e Alegria, cuja programação penetrava nos lares, levando a luz da instrução e a alegria da música. E não se descuidou dos agricultores, criando a UNAC, que trazia orientação técnica e financeira ao campo.

Todavia, a cereja do bolo de todo o labor vai se constituir na construção da nova matriz, hoje catedral, já prevendo que esta modesta paróquia do Norte do Estado, um dia se transformaria na sede de nova diocese.  Nosso templo cristão, além de artístico e monumental, é comemorado entre os cinco primeiros do Estado.

A coleta era o segredo para a concretização das obras. Extorquia até o sangue dos fiéis. Com o pai exigia o porco gordo e com a mãe as cucas para a Festa de Santo Antônio. E o povo colaborava e duvido encontrar hoje um só cidadão arrependido. O bordão: “Não faltará em casa, o que se deposita no altar”. As pessoas sabiam que as ofertas eram transformadas em obras, contrariamente a muitos governos que cobram gordos impostos que se revertem, porém, em magras ações. Politicamente, tinha como padrinho Tarso Dutra e foi um dos artífices na emancipação. O saudoso Dr. Ennio me explicava “que o monsenhor dava tudo mastigadinho”. Óbvio que o apoio era retribuído em votos. Padre Angelim falou que um deputado, aqui desembarcado, (parece que foi Justino Quintana) maravilhado com o dinamismo do pároco, disparou: “O que não seria o Rio Grande, se este homem fosse governador do Estado”.

 

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