Sobre a vida
Mandei uma mensagem de final de ano para um amigo que hoje mora em Sorocaba-SP, dessas protocolares, com votos de saúde, paz, prosperidade e promessas de que “precisamos nos falar mais seguido”, algo que, sendo bem franco, a gente muitas vezes não cumpre e que justifica culpando a correria. Uma mensagem aqui e outra ali, a conversa andou e a gente foi colocando em dia as boas memórias que pareciam estar guardadas na gaveta de uma escrivaninha qualquer.
Falamos de futebol, claro. Ele, torcedor do Inter, me contou que lá onde mora a maioria veste o azul do São Bento, um dos clubes da cidade. Disse que acha estranho torcer “rodeado de azul”, mas que está se habituando, embora não abra mão de um detalhe: não compra a camisa azul do time, apenas a branca. Fica justo, devo admitir.
Fazia tempo que a gente não conversava. Ele falou que estava sem trabalho desde novembro, mas contou isso sem drama, pois logo emendou dizendo que agora, em janeiro, está começando em um novo emprego. Em seu áudio, senti no tom de voz que aquele novo emprego era como um presente de virada de ano, que faz a gente acreditar que depois da tempestade sempre vem um janeiro pronto para abrir caminhos.
Ainda sobre seu recente novembro pesado, soltou um leve desabafo. Disse que quando deixamos de ser necessários, poucos lembram de nós. E que, curiosamente, quando precisavam de favores, os “bons dias” no Whats chegavam sempre antes das sete da manhã, mais pontuais que o próprio alarme do telefone. Fiquei pensando em como somos eficientes para pedir e distraídos para cuidar, em como confundimos presença com conveniência e afeto com agenda cheia, sempre com a falta de tempo como subterfúgio.
Também pensei no quanto temos sido artificiais, não só com as inteligências que hoje nos cercam, mas com a nossa própria. No automático das relações, na espiritualidade. Aliás, como está a nossa relação com Deus? “Dando tempo” para ir à Igreja? Em que lugar Ele está no ranking das nossas prioridades? Deixando claro que não estou questionando e muito menos julgando, mas colocando uma espécie de pontinho de reflexão de modo geral.
Encerramos a conversa e imaginei meu amigo em Sorocaba, firme com sua camisa branca no meio de um mar azul, sendo autêntico diante do cenário ao seu redor. Que a gente também consiga ser assim: autênticos em um mundo de afetos artificiais, presentes quando o outro nada tem a nos oferecer e, se pecarmos por excessos, que seja de generosidade. E talvez o segredo para este novo ano não seja fazer mais coisas, mas dar maior sentido para aquelas que já fazemos. É isso. Feliz e abençoado 2026, turma!
PAPO DE FÉ
“Para tudo há uma ocasião certa, e um tempo para cada propósito debaixo do céu.”
– Eclesiastes 3:1