Feminicídio e as mudanças no papel da mulher na sociedade
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terça, 24 de março de 2026

Cada vez que assisto ao noticiário e vejo imagens de violência contra a mulher ou feminicídio, fico me questionando sobre essa realidade que vivemos. Parece contraditório, se de um lado temos mais informações e mais conhecimento, de outro há a sensação de que em uma parcela dos homens está se ampliando o sentimento de pátrio poder sobre a mulher. Se pararmos para pensar, antes da constituição de 1988, o direito do homem “mandar na mulher” no Brasil estava previsto no antigo Código Civil de 1916, que estabelecia a chamada chefia do marido ou pátrio poder. Pela lei, o marido era considerado o “chefe da sociedade conjugal”, e a esposa perdia parte de sua capacidade civil ao casar, ficando subordinada ao marido.
O aumento dos casos de feminicídio no Brasil precisa ser compreendido como parte de um momento de transformação social. Não se trata apenas de violência em si, mas de mudanças profundas na forma como homens e mulheres ocupam seus espaços na sociedade.
Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 2000, as mulheres passaram a ampliar sua presença no mercado de trabalho, na educação e em posições de decisão. Esse movimento trouxe mais autonomia e fortaleceu a construção de trajetórias próprias. Cada vez mais, mulheres tomam decisões sobre suas vidas, seus relacionamentos e seu futuro.
Ao mesmo tempo, essa mudança acontece dentro de uma estrutura ainda marcada pelo machismo. Em muitos contextos, desde cedo a mulher cresce observando relações desiguais dentro da própria família. Pais, irmãos ou outros homens próximos reproduzem comportamentos de controle ou violência, o que acaba naturalizando a ideia de que esse é o funcionamento “normal” das relações. 
Outro ponto importante é a condição econômica. Uma parcela significativa das mulheres ainda enfrenta dificuldades para se manter financeiramente de forma independente, especialmente quando há filhos pequenos envolvidos. A dependência econômica motiva certa permanência em relações abusivas, mesmo quando a violência já está presente.
A educação também entra nesse debate. Quanto menor o nível de escolaridade, menores tendem a ser as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, a capacidade de autonomia. Isso limita escolhas e reduz as possibilidades de saída de situações de risco.
Do outro lado, muitos homens não foram preparados para lidar com esse novo cenário. As referências que tiveram ao longo da vida nem sempre acompanharam essas mudanças. Isso não justifica a violência, mas ajuda a entender por que, em alguns casos, há dificuldade em lidar com relações mais igualitárias.
O feminicídio, nesse contexto, não é um fato isolado. Ele é, muitas vezes, o resultado de uma sequência de fatores que se acumulam ao longo do tempo, envolvendo cultura, economia, educação e relações familiares.
Estamos diante de um período de transição. As mulheres avançam e constroem novos caminhos, enquanto a sociedade ainda se adapta a essas mudanças. Compreender essa complexidade é fundamental para que as respostas do Estado sejam mais sistêmicas, combinando proteção, educação e oportunidades, e assim reduzindo os caminhos que levam à violência.


 

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